A Verdadeira História de Pedro Mineiro


O verdadeiro Pedro Mineiro se chamava Pedro José Vieira, um homem negro, de olhos pequenos, lábios grossos e nariz largo. Seu cabelo era crespo e tinha as sobrancelhas largas, usava um bigode ralo ecosteleta, sinal típico da capoeiragem.

Tinha o corpo coberto por cica- trizes de ferimentos feitos por faca, navalha e canivete, mostrando que o corpo também conta história. Não era natural do estado da Bahia, havia nascido em 1887 na cidade de Ouro Preto, estado de Minas Gerais, por isso ficou conhecido pela alcunha de Pedro Mineiro.

Aos vinte e poucos anos já se encontrava em Salvador, sabia ler e escrever, foi morador da freguesia do Pilar, e trabalhou como carregador e marítimo. Era muito conhecido pelos agentes da ordem em virtude do seu comportamento valentão e das façanhas praticadas nas ruas de Salvador. Seu nome aparecia com freqüência na coluna policial da imprensa baiana, sendo chamado de gatuno, capadócio, criminoso, facínora e célebre desordeiro.

O principal palco de suas desordens era o Cais Dourado, mas também freqüentava o "27 do Tabuão" e o "botequim do Galinho". Costumava arrumar desavenças com todo tipo de gente, outros capoeiras, mulheres, desordeiros, indivíduos comuns, marinheiros e principalmente policiais.


O crime Do Saldanha e morte de Pedro Mineiro:


Tudo começou semanas antes do episódio ocorrido na Secretaria. Desde o início de dezembro a rua do Saldanha andava em pé de guerra por causa de um grande tiroteio promovido por marinheiros (que estavam "em promiscuidade" com "mulheres de vida fácil") e outros "indivíduos afeitos à desordem".

Na ocasião, várias prostitutas foram presas acusadas de terem sido o "móvel" da confusão, e os marujos indignados foram até a casa do capitão Cyrillo para agredi-lo e exigir que ele colocasse as mulheres em liberdade. Este fato causou um clima de grande tensão, que, tudo indica, foi aumentando com o passar do tempo.

No dia 26 de dezembro, um outro conflito a bala explodiu entre capoeiras e um grupo de marinheiros do torpedeiro Piauhy, chegado do Rio de Janeiro há três meses. O palco da desordem foi o botequim do Galinho, onde os marinheiros jantavam quando foram atacados pelos capoeiras Pedro Mineiro, Sebastião de Souza, e por um indivíduo chamado Antônio José Freire, também conhecido por Branco. O tiroteio durou cerca de 15 minutos, provocando grande alvoroço e muita correria.

Todos os botequins, lojas, armazéns e residências da região fecharam portas e janelas, ficando em campo apenas os contendores, armados de faca e pistola. Na luta, dois marinheiros foram mortos: José Domingos dos Santos, que trazia consigo uma faca, e Francisco Hollanda Wanderley, cujo espólio nada tinha de valor.

Os demais marinheiros feridos conseguiram escapar e voltar ao navio. Pedro Mineiro, Sebastião e Branco tentaram fugir pelas ruas da Sé, mas foram presos por guardas civis e pessoas do povo, conduzidos ao posto policial mais próximo e de lá transferidos para a Secretaria de Segurança Pública.

As razões desse conflito, logo designado de "o crime do Saldanha", são um pouco confusas. A versão mais difundida é que ele foi conseqüência de uma briga entre Pedro Mineiro e um dos marujos envolvidos, ocorrida na noite anterior, por ciúmes de uma prostituta.

Mestre Noronha narra, por exemplo, que o conflito do "botequinho de propriedade de Galinho no Largo da Sé" ocorreu porque a amante de Pedro Mineiro, a garçonete Maria José, aceitara o convite de um dos marujos que "pegou a gostar dela [...] foi quando Pedro Mineiro matou um marinheiro e jogou o outro pela janela do 1 o andar [...]". No entanto, as declarações do sargento do posto policial da Sé, Marinho Vaz Sampaio, trazem novos elementos para a compreensão do fato.

Segundo contou, dias antes, na rua das Campelas, ele fora ataca- do a tiros por um dos marinheiros envolvidos na refrega, que, aliás, já o tinha ameaçado desde a véspera por ter prendido uma meretriz. Nessa ocasião, Pedro Mineiro e Sebastião vieram em seu auxílio e foram agredidos por vários marinheiros, tendo existido, portanto, uma contenda anterior entre os dois grupos.

Talvez ao invadirem o botequim do Galinho, os capoeiras pretendessem se vingar dos marujos, por vontade própria ou a mando do sargento, que acabou também sendo preso e acusado de ter sido o responsável pelo assassinato dos marinheiros. O inquérito sobre "o crime do Saldanha" ocorreu na Secretaria de Segurança Pública.

No dia dos depoimentos formou-se uma grande multidão em frente ao prédio. Pedro Mineiro foi um dos primeiros a ser interrogado. Segundo a imprensa, " perguntado qual a sua profissão, declara ser empregado da polícia e que exercia suas funções por toda a cidade; perguntado em que caráter, diz que de subdelegado da polícia e que não dizia como delegado, porque respondia ao dr. Delegado, pois se respondesse ao chefe, dizia como delegado, por lhe ser inferior; perguntado por ordem de quem se arvorava em autoridade disse que por ordem do chefe e do delegado".

Sobre o crime em si respondeu com evasivas, afirmando ser "secreta da polícia e que, estando em casa a tomar café em companhia de Sebastião e Branco, ouvira grande alarido na rua, pelo que saiu, sendo agredido por marinheiros, procurando se defender com uma faca, nada sabendo dizer sobre a morte dos marinheiros".

A este depoimento se seguiu o dos dois outros réus, Sebastião e Branco, que também se declararam "secretas da polícia", passando-se então ao auto de perguntas às vítimas. Foi aí que aconteceu o inesperado, um dos marinheiros do Piauhy, sentindo-se insultado, atirou contra Pedro Mineiro, dentro da chefatura de polícia e diante das autoridades. Assim, de acusado, Pedro Mineiro passou também a vítima, pois foi gravemente atingido no ombro, na perna e na região lombar.

Esse ataque provocou, evidentemente, uma enorme confusão, com mais de vinte praças de polícia, marinheiros, oficiais de justiça e o delegado atropelando-se na correria, o que facilitou a fuga de Branco e Sebastião. Para evitar maiores danos foi chamado um piquete de cavalaria para montar guarda em frente à Secretaria, mas os dois réus já estavam longe. O capoeira foi, no entanto, perseguido por um marinheiro até a rua da Faísca, onde recebeu uma facada tão profunda nas costas que teve os rins atingidos.

O saldo dos acontecimentos daquele dia foram asinternações de Sebastião e Pedro Mineiro, levados ainda com vida ao Hospital Santa Izabel. Os marinheiros não se submeteram à prisão em terra, sendo conduzidos a bordo do torpedeiro Piauhy, onde, segundo o Capitão de Corveta, Carlos Alves de Souza, foram finalmente encarcerados.

Já Branco conseguiu mesmo fugir, e parece ter-se livrado da prisão, pois nada mais foi noticiado a seu respeito. 9 Durante dias, o "crime do Saldanha" e o atentado a Pedro Mineiro foram manchete de primeira página, especialmente no jornal A Tarde. Ecomo toda a imprensa se interessou pelo assunto.

Cabe dizer, todavia, que o estado de saúde de Pedro Mineiro pio- rava a cada dia depois do atentado. E, segundo a matéria publicada pelo jornal A Tarde de 14 de janeiro de 1915, Mineiro, certo de sua morte, pediu a sua companheira Graciliana Maria da Conceição que lhe trouxesse uma roupa preta e uma navalha que deixara em sua mala, pois pretendia poupar seu sofrimento se suicidando. No entanto no momento em que levava a navalha até o pescoço, um dos policiais o impediu de se matar.

No dia seguinte Pedro José Vieira veio a falecer no hospital Santa Izabel, em virtude dos ferimentos. De acordo com o Diário de Notícias, o morto respondera a Júri quatro vezes e fora preso em uma centena de ocasiões.

Antes de morrer confessou que "os autores da mor- te dos marinheiros do Piauhy eram Sebastião de Souza e Conrado José dos Santos, mas que ele também tomara parte no conflito, espancando outros marinheiros do destróier". Tinha 27 anos de idade e foi enterrado no cemitério da Quinta dos Lázaros.

Tamanha celeuma e todos esses fatos tornaram Pedro Mineiro um dos capoeiras mais conhecidos na Bahia da Velha República. Sua fama ganhou as ruas, estendendo-se pelo mundo da desordem, onde se tornou uma espécie de mito, sempre lembrado pelos seus pares.

Quatro anos depois de seu morte, sua história continuava no imaginário popular, como se pode ver no relato jornalístico a seguir: "Está com o 'espírito' de Pedro Mineiro, diz a toda gente, e vai justificando suas façanhas.

Ignoramos o nome desse desordeiro que assim se diz atacado de 'espírito',mas o que não podemos concordar é que a polícia não tenha conhecimento do fato. Esse Pedro Mineiro ressuscitado mora no Tabuão, onde à noite ataca e espanca os transeuntes que lhe caem nas garras".



Nas Fotos:
Pedro Mineiro e Sebastião de Souza. A Tarde, 30/12/1912.
Pedro Mineiro na "morgue" (morto)
O Famoso Torpedeiro Piauí
Todas as Fontes Internet

Fotos Adquirida da Fonte na Web



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